Entendendo a Síndrome de Asperger

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a Síndrome de Asperger (SA), também conhecida por Transtorno de Asperger ou simplesmente Asperger, como um dos transtornos do espectro autista ou condições do transtorno global do desenvolvimento, as quais são um espectro de condições neurológicas que se caracterizam por dificuldades na interação social e na comunicação, além de interesses restritos e comportamentos repetitivos.

 

Difere de outros transtornos do espectro autista pelo desenvolvimento típico da linguagem e cognição.

 

O Transtorno do Espectro Autista começa na infância e se instala antes dos 3 anos, tem um andamento estável, sem agravamento da condição já existente ou deterioração do funcionamento mental e geralmente apresenta melhoras que resultam da maturação de vários sistemas do cérebro.

 

É comum que algumas pessoas e ao menos um dos pais de crianças diagnosticadas com a Síndrome de Asperger apresentem alguns traços semelhantes à síndrome, sem que preencham critérios suficientes para o diagnóstico de autismo, caracterizando o que se chama de fenótipo ampliado do autismo .

 

Das quatro formas de Transtorno do Espectro Autista, o autismo é a mais parecida com a Síndrome de Asperger em sinais e prováveis causas, mas seu diagnóstico requer comunicação prejudicada e permite atrasos no desenvolvimento cognitivo; a Síndrome de Rett e o Transtorno desintegrativo da infância compartilham vários sinais com o autismo, mas podem ter causas não relacionadas; e o Transtorno Global do Desenvolvimento sem outra especificação é diagnosticado quando os critérios para distúrbios mais específicos são insatisfatórios.

 

Embora não seja fundamental para o diagnóstico, ser fisicamente desajeitado e ter uma linguagem atípica ou excêntrica são características frequentemente citadas pelas pessoas com a síndrome.

 

O diagnóstico com a nomenclatura de Síndrome de Asperger foi eliminado na quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) e a síndrome foi incorporada aos transtornos do espectro autista, de grau leve.

 

O termo técnico aplicado à Síndrome de Asperger nos manuais médicos atuais é Desordem do Espectro Autista de Nível 1, sem a presença de prejuízos intelectuais ou verbais.

 

A síndrome foi nomeada em homenagem a Hans Asperger, pediatra austríaco que em 1944 estudou e descreveu crianças nas quais, em seus cotidianos apresentavam falta de habilidades na linguagem não verbal, demonstravam limitada empatia por seus pares e eram fisicamente desajeitadas.

 

Hans Asperger afirmou existir semelhanças no comportamento de seus pacientes com alguns de seus familiares, principalmente os pais, defendendo a tese de que a origem da Síndrome de Asperger pode ser genética.

 

Embora as pesquisas ainda não apontem um gene especificamente responsável, muitos fatores embasam tal crença, principalmente devido à variabilidade fenotípica observada dentre as crianças com Síndrome de Asperger.   Uma destas evidências se concentra no fato de que a síndrome pode ser diagnosticada em mais de um membro da família e uma maior incidência de indivíduos, dentro do mesmo círculo familiar, apresentarem sintomas de forma extremamente leve (como por exemplo, dificuldades de leitura, interação social ou linguagem).   Irmãos de crianças com a Síndrome de Asperger, muitas vezes, também apresentam traços ou condições afins, mais uma vez reforçando a ligação genética do quadro.


Exames de imagem apontam evidências de alterações estruturais em determinadas regiões do cérebro, o que comprova o forte fator genético.  Tais formações se dão logo após a concepção, ainda em estado embrionário, e são características que quase sempre podem observadas também nos pais ou em um deles, caracterizando o que se chama de Fenótipo Ampliado do Autismo (FAA), que é quando o indivíduo não tem a síndrome completa, mas possui alguns traços.


Grande parte dos estudos sugerem que todos os transtornos do espectro autista compartilham mecanismos genéticos, podendo ter uma origem comum e de maior destaque, no caso, o autismo em si.   No entanto, sua origem provavelmente não é causada por um grupo de genes comuns nos quais os alelos (formas alternativas de um mesmo gene) tornam um indivíduo vulnerável ao ponto de desenvolver Asperger, mas, se for o caso, a combinação de alelos, em cada caso determinaria a gravidade e os sintomas de cada indivíduo que possui a condição.

 

Alguns poucos casos de transtornos globais do desenvolvimento são considerados efeitos do ambiente ocorridos nas primeiras semanas de gestação.   Embora isso não exclua a possibilidade da Síndrome de Asperger se manifestar antes ou depois disso, conclui-se que, provavelmente seu surgimento seja precoce no desenvolvimento humano.

Outra hipótese, sem conclusões advindas da comunidade científica é que fatores ambientais possam exercer alguma influência após o nascimento.   Dentre esses fatores, poder estar certos produtos químicos, medicações utilizadas pela mãe durante a gravidez (especialmente nos primeiros 3 meses de gestação) ou mesmo a poluição, mas por enquanto são apenas especulações sem comprovação.

 

Embora a causa exata do transtorno ainda não seja conhecida, sabe-se, que o transtorno está presente desde o nascimento e que tem um forte componente genético, e que não é, portanto, causado por estilos inadequados de criação dos filhos ou traumas emocionais.

 

 

Os indivíduos com Asperger não apresentem dificuldades no desenvolvimento da fala, seu discurso carece de adaptações significativas, pois a aquisição e uso da linguagem é geralmente atípica.

 

Os comportamentos incluem dificuldade no uso de linguagem social (não dizem "oi" e "tchau", não respondem o nome ou idade quando perguntadas, etc.) verbosidade, transições bruscas (entram ou saem de um ambiente repentinamente, mudam de assunto sem o uso de introduções, etc.), interpretações literais e má compreensão da nuance; além de uso de metáforas ou expressões idiomáticas, os déficits de percepção auditiva, pedantismo extremo, discurso idiossincrático e/ou formal, e excentricidade na sonoridade, afinação, entonação, prosódia, e ritmo.

A ecolalia é uma característica encontrada em algumas pessoas com Síndrome de Asperger.

 

Aspectos nos padrões de comunicação são de interesse clínico com a prosódia pobre, discurso circunstancial e tangencial, e notável verbosidade.  Apesar da inflexão e entonação ser menos rígida ou monótona do que no autismo clássico, as pessoas com Síndrome de Asperger têm, em alguns casos, uma gama limitada de entonação: a fala pode ser extremamente rápida, irregular ou alta.

Sua fala pode transmitir incoerência; e seu método de discurso muitas vezes é uma espécie de monólogo sobre temas que não há espaço para comentários do interlocutor, e, em alguns momentos, pensamentos pessoais não são suprimidos.  

Portanto, tais indivíduos podem não conseguir perceber se o ouvinte está interessado ou envolvido na conversa e a excessiva honestidade aos expressar as próprias opiniões pode ser interpretada com rudeza.   A conclusão do discurso pode nunca acontecer, e a compreensão do receptor acerca do assunto é rara.

 

As crianças com Síndrome de Asperger podem ter um vocabulário extraordinariamente complexo numa idade jovem e informalmente serem chamados de "pequenos professores", mas possuem dificuldade em compreender o sentido figurado e normalmente interpretam tudo de forma literal.  Assim, mostram ter fraquezas particulares em áreas da linguagem não literal como o humor, ironia, provocação e sarcasmo.  Embora geralmente compreendam a base cognitiva do humor, não parecem entender sua origem para rirem com os outros.   Apesar da apreciação de humor aparentemente prejudicada, habilidades na área em alguns existem e são exceções que desafiam os estudos acerca do autismo.

 

Há vários tipos de tratamento e sua efetividade é limitada.  Os recursos médicos procuram atenuar os sintomas e melhorar as habilidades.   A principal delas é a terapia comportamental em déficits específicos, tais como dificuldades de comunicação, rotinas obsessivas e/ou repetitivas e movimentos desajeitados.  Muitas crianças melhoram conforme caminham para a idade adulta, mas dificuldades sociais e de comunicação podem persistir.


A moderna concepção da Síndrome de Asperger surgiu em 1981 e passou por um período de popularização, tornando-se um padrão diagnóstico no começo dos anos 1990.  Muitas questões e controvérsias permanecem acerca de seus aspectos. Questiona-se sua distinção com o autismo de alta funcionalidade; em parte por causa disso, sua prevalência não é firmemente estabelecida.

 

Indivíduos com Síndrome de Asperger geralmente se intitulam como "aspies" (um termo usado pela primeira vez numa publicação por Liane Holliday Willey, em 1999).

 

O termo neurotípico descreve uma pessoa cujo desenvolvimento e o estado neurológico é típico, além de denominar indivíduos os quais não são autistas.

 

A internet permitiu que os indivíduos autistas se comuniquem e comemorem a diversidade entre si de uma forma que não era possível anteriormente devido à sua raridade e dispersão geográfica.   Com isso, hoje existe uma subcultura dos aspies.

 

Pessoas autistas têm defendido uma mudança na percepção dos transtornos do espectro autista como síndromes complexas ao invés de simplesmente doenças que devem ser curadas.

Os defensores desta visão rejeitam a noção de que há uma configuração do cérebro "ideal" e que qualquer desvio desta norma seja patológica.  Assim, promovem a tolerância e a ideia de neurodiversidade, que, de certa forma torna-se um pilar para os seus direitos e movimentos do orgulho autista.

 

Em contrapartida, enquanto muitos indivíduos aspies possuem orgulho de sua identidade e não desejam ser curados, muitos pais procuram assistência médica para seus filhos, na busca de uma cura.

 

Alguns pesquisadores têm argumentado que a Asperger deveria ser vista como uma forma cognitiva distinta, não um distúrbio ou deficiência, e deveria ser removida do Diagnóstico e Estatístico de Transtornos, assim como a homossexualidade; e defendem uma mudança de postura em relação à síndrome no sentido de tratá-la como uma diferença, em vez de uma deficiência que deva ser tratada ou curada.

 

Em um estudo de 2002, Simon Baron-Cohen escreveu que os indivíduos com Síndrome de Asperger não são beneficiados socialmente por serem tão atentos aos detalhes, mas que no campo profissional, principalmente na área de ciências exatas, um olhar detalhista favorece os autistas ao sucesso, em vez do fracasso.   

Cohen acredita que existem dois motivos pelos quais ainda valha a pena considerar Asperger como uma deficiência: para garantir o apoio emocional garantido por lei e de assegurar o reconhecimento das dificuldades de empatia que apresentam.  Além disso, argumenta que possivelmente há genes associado às habilidades da síndrome em atuação na evolução humana, deixando contribuições notáveis na história da humanidade.

 

Todo 18 de fevereiro celebra-se Dia Internacional da Síndrome de Asperger, data escolhida pelo aniversário de nascimento de Hans Asperger.

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